Fingimento

No princípio havia amor. Havia ciúmes. Havia brigas e reconciliações.

Depois foi só o silêncio. Aí foi-se a vontade. Foi-se o desejo.

Sobraram as palavras não ditas, que se sobrepuseram ao restante do afeto, sufocando-o.

Daí, o silêncio consentiu o fim.

A partir de então, a ansiedade de esbarrar com você na rua se tornou uma possibilidade incômoda a ser evitada. Um fingimento calculado. Um sorriso forçado.

Mesmo assim, quando o acaso nos reúne num mesmo espaço, involuntariamente sinto um calafrio. Observo de longe até você virar o rosto, daí olho para outro lugar fingindo estar distraída. Tornei-me uma fingidora fingida.

Finjo de indiferença o rancor, ao transparecer um leve descaso. Finjo alegria ao ouvir suas banalidades. Digo que foi bom te rever. Finjo, ao dar de ombros, que não lembro das ocasiões que você insiste em mencionar casualmente. Finjo até o “tudo bem?” da saudação.

Finjo alegria, enquanto disfarço a tristeza.

Me faço de boba. De esquecida. Vivo fingindo. Finjo tão completamente que chego a fingir que é dor, a dor que, de fato, sinto. Só não sou poeta.

Mas no fim, só havia fingimento. Havia disputas para ver quem sofria “menos”. Havia mágoa e rancor.

Depois foi só civilidade. Aí foi-se a esperança. Foi-se o sentimento.

Sobraram lembranças, que se sobrepuseram aos outros que cruzaram o nosso caminho, expulsando-os.

Daí, a memória consentiu o recomeço.

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2 comentários sobre “Fingimento

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