A geração que pouco lê, e tudo compartilha

Num mundo onde os relacionamentos foram reduzidos a likes e a mensagens de texto curtas e objetivas, tenho a impressão de que o que sobrou da poesia foram fragmentos compartilhados nas redes por aqueles que estão com dor de cotovelo e que as usam como indiretas.

Com o hábito de lermos cada vez menos (quantos likes você já deu sem ao menos clicar num link para ler o texto/notícia?), a gente curte uma estrofe, no máximo, um parágrafo, em vez de se regozijar com o todo; a gente compartilha “O essencial é invisível aos olhos” ou “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” sem ao menos ter lido “O Pequeno Príncipe”. Somos a geração que pouco lê, e tudo compartilha.

Mas hoje isso vai mudar! Pelo menos aqui… Selecionei algumas poesias completas, para serem lidas do início ao fim, sem moderação!

E começo pela poesia mais linda da língua portuguesa, de ninguém menos que Fernando Pessoa!

Não digas nada!

(se você não entendeu esse gif, bom p/ vc!)

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender –
Tudo metade
De sentir e de ver…
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz
Não digas nada.

Memória – Carlos Drummond de Andrade

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Bem no fundo – Leminski

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

Alone – Edgar Allan Poe

(em inglês mesmo, porque traduzi-lo, mataria o texto)

From childhood’s hour I have not been
As others were; I have not seen
As others saw; I could not bring
My passions from a common spring.
From the same source I have not taken
My sorrow; I could not awaken
My heart to joy at the same tone;
And all I loved — I loved alone.
Then in my childhood, in the dawn
Of a most stormy life was drawn
From every depth of good and ill
The mystery which binds me still;
From the torrent, or the fountain,
From the red cliff of the mountain,
From the sun that ’round me rolled
In its autumn tint of gold,
From the lightning in the sky
As it passed me flying by,
From the thunder, and the storm,
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view.

 

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