A culpa é do John Green

Há tempos que o Nicholas Sparks vem desentupindo as glândulas lacrimais das mulheres com suas histórias de amor melosíssimas, que sempre contam com uma morte trágica (de uns tempos p/ cá, as vítimas tem sido os personagens secundários ao invés de um dos protagonistas) e um final agridoce. Tais livros rapidamente viram filmes e as novas edições das histórias são lançadas com os atores nas capas sempre na mesma posição: um de frente p/ outro se olhando prestes a se beijar ou se abraçando.
A fórmula é a mesma desde sempre, e não estou aqui p/ criticá-la, afinal eu mesma já solucei lendo “Uma carta de amor” ou vendo “Um amor para recordar” e “O diário de uma paixão”, mas me parece que a popularidade do escritor aumentou expressivamente de uns tempos para cá. Nunca vi tantos livros dele em destaques nas livrarias, e o “rebuliço” que ele causou na Bienal corrobora para tal observação.  Mas por que comecei falando dele?
Porque me parece que John Green vai para o mesmo caminho, só que trazendo protagonistas adolescentes inclinados à melancolia e à reflexão. Seus personagens apaixonados costumam usar metáforas para expressarem seus medos, angústias, incertezas e reflexões quanto a morte. Provavelmente por isso que, por serem jovens e dispostos a viver intensamente, suas histórias também trazem um pouco da inconsequência típica da idade, remetendo aquela ideia de “carpe diem”, com viagens com amigos e coragem para fazer certas coisas das quais os protagonistas não fariam senão estivessem motivados por suas paixões e a vontade de criar momentos inesquecíveis. Pelo menos foram esses os pontos comuns que notei nos três livros que li.
Mas vou acabar sendo obrigada a apelar para os clichês e dizer que vocês vão rir e se emocionar com suas histórias. E provavelmente muitos vão chorar também… E é tudo culpa do John Green!
Para quem ainda não conhece, eis os livros do autor:
Quando o personagem de uma história tem câncer, normalmente o desenrolar da história mostra as dificuldades impostas pela doença além da associação da velha ideia, difundida exaustivamente, de “carpe diem” (como disse acima). Assim, ao receber um diagnóstico que lhe dá pouco tempo de vida, ele começa a “viver pela primeira vez” e a dar valor às pequenas coisas, etc.

Embora no fundo, “A culpa é das estrelas” mostre isso também, o livro é melancólico beirando ao pessimismo em muitas partes, dando um “choque de realidade” de vez em quando, como neste pedaço:

“Vai chegar um dia em que todos vamos estar mortos. Todos nós. Vai chegar um dia em que não vai sobrar nenhum ser humano sequer para lembrar que alguém já existiu ou que nossa espécie fez qualquer coisa nesse mundo. Não vai sobrar ninguém para se lembrar de Aristóteles ou de Cleópatra, quanto mais de você. Tudo o que fizemos, construímos, escrevemos, pensamos e descobrimos vai ser esquecido e tudo isso aqui vai ter sido inútil. Pode ser que esse dia chegue logo e pode ser que demore milhões de anos, mas, mesmo que o mundo sobreviva a uma explosão do Sol, não vamos viver para sempre. Houve um tempo antes do surgimento da consciência nos organismos vivos, e vai haver outro depois. E se a inevitabilidade do esquecimento humano preocupa você, sugiro que deixe esse assunto para lá. Deus sabe que é isso que todo mundo faz.”

Embora o tema não seja leve, John Green não apela para um dramalhão e no decorrer da leitura, faz referências a poemas como Nothing gold can stay de Robert Frost até à hierarquização de necessidades de Maslow, tornando a leitura rica.

O livro fictício “Uma aflição imperial” dá um toque especial e gera as reflexões mais belas dentro da história. Fiquei até com vontade de lê-lo.

E a história de Hazel e Gus vai virar filme. Preparem os lencinhos!

Sinopse: Após seu mais recente e traumático pé na bunda – o décimo nono de sua ainda jovem vida, todos perpetrados por namoradas de nome Katherine – Colin Singleton resolve cair na estrada. Dirigindo o Rabecão de Satã, com seu caderninho de anotações no bolso e o melhor amigo no carona, o ex-criança prodígio, viciado em anagramas e PhD em levar o fora, descobre sua verdadeira missão: elaborar e comprovar o Teorema Fundamental da Previsibilidade das Katherines, que tornará possível antever, através da linguagem universal da matemática, o desfecho de qualquer relacionamento antes mesmo que as duas pessoas se conheçam.

Uma descoberta que vai entrar para a história, vai vingar séculos de injusta vantagem entre Terminantes e Terminados e, enfim, elevará Colin Singleton diretamente ao distinto posto de gênio da humanidade. Também, é claro, vai ajudá-lo a reconquistar sua garota. Ou, pelo menos, é isso o que ele espera.

-> Achei o mais fraco de Green até o momento, mas é interessante a construção do Teorema e a tentativa de matematizar as relações, ou seja, procurar uma lógica em questões emocionais, o que não deixa de ser um paradoxo, né?
Sensível e cativante, como suas obras anteriores, em Cidade de Papel vemos novamente adolescentes reflexivos, apaixonados e melancólicos que tentam encontrar seu lugar no mundo e tem que lidar com as perdas da transição da adolescência para a fase adulta, da formatura no colégio para o que vem a seguir, que às vezes é algo muito incerto.
Na história, Quentin procura por Margo, sua vizinha e amor de infância, que após uma noite de aventuras com ele (ou seja, de novo aquela ideia de que o “carpe diem” é uma noite de inconsequências como invadir um parque a noite, a casa dos outros, etc), foge de casa, mas como não é a primeira vez que ela faz isso, ninguém sabe quando ela volta e desta vez, se ela vai voltar.
Encontrando pistas deixadas por ela, Quentin sai a procura de Margo numa viagem de carros com os amigos, algo que remete à “On the road” de Kerouac, na esperança de encontrá-la (viva ou morta).
Embora isso possa soar um tanto piegas (e é), às vezes é procurando o outro que nos encontramos e se fica alguma lição para o personagem (e quem sabe, para o leitor) é a percepção que nada acontece como a gente acha que vai acontecer e é preciso se colocar no lugar do outro para entender que, às vezes, mesmo não sendo o ideal (para nós), as coisas são como devem ser e isso significa saber “deixá-las partir”.
É isso, até a próxima!
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2 comentários sobre “A culpa é do John Green

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