O taxista das cinco filhas

São as pequenas coisas que nos fazem sentir que pertencemos a algum lugar. Em Petrópolis, eu poderia dizer que é a brisa fria quando anoitece, não importando a estação. Andar pelo Centro da cidade e sempre ter a sensação de que a cada passo, se pisa e respira história. Sentar nos bancos do Museu e observar os turistas e crianças em seus passeios escolares. Entrar num café, ser reconhecida e já saberem de antemão o que você vai pedir. E no meu caso, pegar um táxi sempre no mesmo ponto quando já é tarde da noite. E é para este “amigo” que eu nem sei o nome, mas que sempre me leva em segurança para casa que eu dedico a singela crônica (?) abaixo.


O taxista das cinco filhas
Na fila de táxis brancos em frente ao teatro da cidade, um táxi se destaca pela quantidade de adesivos na parte traseira. São aqueles que vendem em bancas de jornal e que, aparentemente, viraram tendência entre as classes mais humildes, onde se coloca cada membro da família em versão de boneco palito. Na traseira de seu táxi, há cinco bonequinhas.
Entro no carro tarde da noite, querendo ficar na minha e chegar em casa o mais rápido possível, mas o carro mal anda, ele acende a luz para mostrar 5 fotos 3×4 e começa a me contar sobre cada uma de suas filhas. Eu sei que a mais velha tem 19 anos e vai noivar, é muito inteligente e trabalhadora. As outras tem pouca diferença de idade entre si e até o mais novo membro da família era uma fêmea, uma cachorrinha. Ele era minoria em sua casa.
No curto trajeto, ele discursa e ocasionalmente faz uma pergunta a qual eu respondo com monossilábicos, já que depois de um determinado horário da noite, não consigo ser mais prolífica com as palavras. Ele parece satisfeito e ouve educadamente, ansiando para continuar o monólogo que ele tenta fazer parecer um diálogo.
Ele nem pergunta mais o meu endereço, já me reconhece e mal eu entro no carro, começa a tagarelar. Desta vez, fala sobre os perigos de se andar de moto, no que ele assume um tom paternal, pois já que tenho a idade aproximada de suas filhas, de uma certa forma ,ele sente que deve me aconselhar também. É reconfortante.
São 2h da manhã, encaminho-me ao ponto e procuro pelos adesivos familiares. Ele não está lá. Este taxista não abre a boca. Reina, enfim, o silêncio que sempre busquei a esta hora da noite.
A volta para casa nunca foi tão longa.
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