Deus a abençoe

Olá,

é, resolvi mudar o visual do blog de novo porque o outro demorava p/ carregar… O que acharam?

Achei esse texto que fiz há um tempinho e não sei porque cargas d’água resolvi postar agora, provavelmente porque estou sem criativade para pensar num post.

Só p/ não acharem que é só mais um texto meu ruim, uma breve contextualização: aqui em Petrópolis, tem um quiosque de café numa galeria e é só você sentar ali, que vem sempre alguma criança pedindo para você comprar uma bala. Por mais que todo mundo ache isso uma encheção de saco e é, eu sempre fico incomodada não só pela situação em si, mas porque dar ou não um real, ou seja lá qual for o valor ínfimo cobrado, não vai fazer diferença nenhuma na vida daquela pessoa. Talvez só te ajude a dormir melhor a noite achando que fez uma boa ação, ou nem isso..

Enfim, como isso aqui não é nenhum divã, vamos ao texto:

(a imagem é meramente ilustrativa, peguei no google e nem sei aonde é. Se ‘fere’ os direitos autorais de alguém, desculpa ae)

Deus a abençoe

Um café.

Mulheres com seus casacos quentes e botas de couro de cano alto bebericam seus cappuccinos fumegantes enquanto tagarelam sobre futilidades. Riem, divertem-se.

Homens de paletós, com suas pastas negras, discutem acaloradamente questões de seus negócios enquanto engolem o café preto, sem ao menos sentir seu gosto, pois estão atrasados para alguma reunião.

Adolescentes que acabaram de sair das aulas se reúnem ao redor de uma única mesa pequena, gargalham e comem pão de queijo.

Uma criança maltrapilha timidamente se aproxima e pergunta: “Moça, compra uma bala?”.
Numa fração de segundos ocorre o choque entre dois mundos. Enquanto a criança me fita com aquele olhar triste, esperando uma resposta, mil coisas se passam pela minha cabeça.

Comprar uma bala poderia ser o sustento de uma alcoolatra que obriga esta criança a trabalhar para fomentar seu vício. Ou aquele dinheiro pode ser a única renda de uma família que depende da caridade alheia para sobreviver dia após dia. Ou ainda aquela moeda de 1 real pode ser o estímulo que aquela criança precisa para se acostumar a mendigar e nunca sair da inércia, pois seu olhar triste e a aparência desleixada comovem.

1 real passa a ter um valor imensurável e cabe a mim pagar o preço ou não. Quero eu pagar o preço de uma vida?

Aqueles olhos de infância perdida continuam me encarando. Minha hesitação lhe consome seu tempo. Tempo é dinheiro.

Compro a bala.

“Deus a abençoe”, ela fala.

Sorrio e a observo partir para a próxima mesa, seguindo resignada com as consecutivas negativas que recebe.

Diante de tal cena, ateia que sou, faço uma prece silenciosa quando vou embora.

Que Deus a abençoe!

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4 comentários sobre “Deus a abençoe

  1. De arrepiar, Mari! Texto sensível e dolorosamente bonito… o fato de que é real, que tá aqui sob os nossos olhos, na nossa cidade, é o que mais faz pensar. E o modo como você colocou isso em uma crônica é brilhante!

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  2. Muito bom o texto! Nunca sei se devo comprar também, é uma dúvida que surge todo dia, uma vez que praticamente todo dia sou abordado por um pequeno-vendedor. Sempre surgem muitas reflexões dessas situações. Que bom que ainda nos incomodamos e sentimos necessidade de pensar e falar sobre isso – num texto por exemplo.

    Bjs!

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