A Flor que desabrochou na terra seca

Olá,

(antes de mais nada, a Revoltadinha voltou a destilar o seu veneno…)

depois de quase 2 meses sem escrever algo mais literário(?), minha prisão de ventre mental passou resolvi sentar p/ escrever algo que não fosse monografia e saiu o texto a seguir…

Depreciações minhas à parte, porque parece que é pedir elogio, deixo os comentários p/ vocês…

A Flor que desabrochou na terra seca

Foi onde o Sol nascia todos os dias e parecia esquecer de se pôr; além dos quilômetros da última estrada de terra, numa região tão seca quanto os olhos dos habitantes que choravam sem lágrimas, de sede, que nasceu Maria Flor.

Desde que deu seus primeiros gritos desesperados ao avistar a primeira luz ofuscante de sua vida, a menina já estava destinada a uma vida braçal junto de seu primo Agenor, que segundo as vontades da família, seria seu futuro marido. Pois embora a terra não desse frutos, os úteros das mulheres do povoado se mostravam tão férteis quanto as planícies do Nilo e era importante que continuasse assim.

Quando o destino é traçado no momento em que a mãe se descobre grávida, é difícil ter sonhos ou ambições, principalmente quando não se conhece uma outra realidade. Assim era a vida lá: crescia-se, casava-se, procriava-se, ensinava a cria a sobreviver e morria-se. Com sorte, a sensação de vazio permanente no interior sem ser a fome, era preenchida com o tempo.

Quando Maria Flor completou seu décimo terceiro aniversário, a família decidiu de que já estava mais do que na hora de se casar com Agenor e assim foi feito. Uma vez desconhecido o conceito de amor, podia-se dizer que tinham um bom casamento.

Maria Flor era lavadeira. Agenor trabalhava na pedreira e foi lá que conheceu Adamastor, seu melhor amigo. Adamastor era um rapaz de dezoito anos e para estranhamento de todos da região, ainda não havia se casado. Ninguém sabia o porquê.

Adamastor ia frequentemente à casa do casal. Sempre muito educado, levava uma flor para a anfitriã, elogiava sua comida e oferecia ajuda para retirar a mesa. Que rapaz estranho!, pensava Maria Flor. Não estava acostumada com gentileza e a ideia de que um homem, melhor amigo de seu marido e ainda por cima tão bem apessoado, pudesse ser tão atencioso a atordoava. Ainda mais atordoante era saber que gostava disso.

As visitas de Adamastor eram cada vez mais frequentes e as flores cada vez mais bonitas. Num dia, suas mãos acidentalmente se tocaram. Propositalmente ali permaneceram. Era bom sentir em sua pele um calor diferente do que o sol lhe proporcionava diariamente. Era bom. Era muito bom.

Não se sabe ao certo quando, mas de repente, não mais do que de repente, tudo estava diferente. A presença de Agenor tornara-se incômoda e sua pele mais áspera do que o normal.

O sono já não vinha mais fácil e dividir um teto com outra pessoa tornara-se mais pesado e mais doído que as bacias que carregava na cabeça.

Foi num curto espaço de tempo. Foi quando olhou p/ trás e viu o quê ficou pelo caminho. Após muitas lágrimas terem sido derramadas. Após muitas noites desperta ponderando.

Foi dessa dor e dessa incerteza que nasceu esse amor.

*******

Outros contos/histórias/divagações:

Criação

Permanência

Despertada

Mudança de Estação

Sala de aula

Era uma vez

Anúncios

2 comentários sobre “A Flor que desabrochou na terra seca

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s