Ore por mim

Olá,

se tem uma coisa que eu curto é ir à livrarias. O cheiro dos livros novos, as prateleiras cheias de novidades, aqueles autores queridos que eu sei exatamente em que estante estão e os pocket books, que trazem clássicos por um preço tão acessível, me fascinam e me fazem ficar horas lá dentro. Não consigo entrar sem abastecer minha biblioteca pessoal e folhear minhas novas aquisições, sentada no café desses lugares. (Podem falar o que quiser, mas esse é o tipo de programa que eu mais gosto de fazer no final de semana xD)

Enfim, foi numa dessas minhas idas que (isso vai ficar redundante) achei mais um achado. O livro se chama A última madrugada e é uma compilação de crônicas do J.P. Cuenca, escritor que até então eu desconhecia. Um bom cronista, para mim, é aquele que consegue transformar o simples e o banal numa narrativa interessante e porque não, reflexiva. E isso, pelo que pude constatar até agora, Cuenca faz como ninguém.

Por isso, o post de hoje é uma das crônicas deste livro que se chama Ore por mim, que eu achei de uma simplicidade e delicadeza ímpar, mas deixo aqui para vocês julgarem/opinarem/comentarem.

É noite e é a Lapa. Acompanhado por um cortejo de fiéis, saio do Nova Capela carregando a donzela com a mão esquerda e um saco plástico com a direita. Tenho o hábito suburbano de pedir a quentinha quando sobra comida na mesa – especialmente quando se trata do cabrito do Capela.

Mesmo que não vá comê-lo depois.

É o que normalmente acontece numa cidade onde o próximo passa fome. Na Rua do Riachuelo, quase sob os Arcos, sou interpelado por um sujeito. É um negro gordo, descalço e sem camisa. Pede um trocado, está com fome, desde ontem sem comer e o remédio que o governo… Numa reação instintiva, desvio o olhar, dou-lhe um drible de corpo e uma passada larga. Mas lembro da quentinha e paro.

Você quer? É cabrito. A expressão no rosto do homem se transforma. Estendo o braço, ofereço o saco plástico, o cabrito flutuando dentro de uma cápsula de papel alumínio. Do Capela? O homem me pergunta num tremor de comoção. É do Capela, ainda está quente, respondo. O tom atrevido do primeiro pedido já não existe. Agora o sujeito me encara com o olhar das senhorinhas ao santo padre.

O senhor é um sujeito iluminado. Eu estava aqui na maior necessidade e agora um cabrito… Muito obrigado. Saiba que tem aqui um amigo. Um novo amigo! Qual é o seu nome? O homem mistura as frases umas nas outras, agarra meu antebraço com a mão inchada. A donzela e meus velhos amigos já estão algumas dezenas de metros adiante. Quando olham para trás, se perguntam: estará louco?

Aqui, o homem insiste: qual o seu nome? Eu respondo. Ele me estende amão. Não se nega cumprimento a ninguém – e mão suja por imunda, já beijei piores. Meu nome é Luiz Alberto, e o senhor é um homem bom, repete e cresce para mim num abraço salpicado de areia.

Eu queria fazer um pedido ao senhor, me pergunta já com a posse definitiva dos restos do cabrito. É que a minha vida está numa pior. E agora me encara com os olhos injetados, as pupilas escuras como duas ilhas Cagarras num mar de sangue. Eu queria fazer um pedido, com toda a consideração ao amigo. Ao senhor amigo. É que o senhor não sabe as coisas que me acontecem. O senhor não imagina.

Agora, o homem já me constrange. Sua insistência me dá pena e certa irritação. Quando percebo que estou irritado, me sinto instantaneamente culpado – e mais constrangido. Quero sair dali, continuar meu périplo pequeno-burguês por bares sujos como a mão que o homem me oferece, e penso nos meus amigos e na donzela, imagino que já tenham se esquecido de mim, que tenham virado a esquina da Joaquim Silva e me deixado para trás – o que cedo ou tarde há de ocorrer, mas que não seja hoje, que não seja agora.

Começo a ir, a separar nossas existências em definitivo, ando de costas num passo ridículo, estico o pescoço para enfim ouvir o que quer o novo dono do cabrito, imaginando que jamais irei atendê-lo. E ele faz o pedido final, absoluto: ore por mim, senhor.

Luiz Alberto é meu nome. Não se esqueça do meu nome: Luiz Alberto. Ore por mim hoje à noite, senhor. Eu preciso. E o senhor não sabe. O senhor não imagina como eu preciso. Ore por mim. Não se esqueça…

Desapareço na sombra dos Arcos, jogo um aceno triste ao homem e sufoco o desejo de pedir ao Luiz Alberto que também ore por mim.

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2 comentários sobre “Ore por mim

  1. Eu poderia colar o primeiro parágrafo no meu perfil de descrição, porque também não resisto a uma livraria. Não só pelos livros, mas pelo ambiente, tudo.

    Eu também adoro esse tipo de crônica. Já ouvi falar no Cuenca, mas nunca li nada completo dele. E achei muito bom o texto!

    Beijos

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