Mudança de estação

Olá,

bom, o que me motivou a escrever o texto abaixo foi o frio quase glacial de Petrópolis hahahaha

Sempre fizera muito frio em sua cidade, do tipo que congelava a alma. Sem exageros.

Nenhuma lareira ou aquecedor daria conta daquela casa. Era uma casa grande e antiga, que fazia barulhos estranhos a noite. Pode-se dizer que a casa era como àquelas clichês de filmes de terror. Sendo assombrada ou não, a menina tinha medo do lugar. Não se sentia segura e não havia ninguém ali para protegê-la.

Ao longe só se escutava o ronco de seu pai, que para variar estava dormindo ou de cansaço ou embriagado.

Estava deitada em sua cama, debaixo de seus cobertores, mas ainda tremia. Observava as formas aterrorizantes que as sombras dos galhos das árvores formavam em sua parede. Ouvia o som tão baixo e ensurdecedor da goteira em seu quarto. Ouvia o latido de seu cachorro preso lá fora. Ouvia, pois era a única coisa que podia fazer na escuridão. Isso e esperar. Esperar o sono vir ou a luz voltar, o que acontecesse primeiro.

O galo cantava. Era um novo dia. Se era março, julho ou setembro não importava. Não ousava olhar no calendário para saber se o tempo estava passando, porque para ela não fazia diferença. Só sabia que ainda era inverno e que ao julgar pelas marcas de seu crescimento na parede, ainda era uma criança. Pelo menos na estatura.

A comida havia acabado, e claro que seu pai havia esquecido de comprar, pois o dinheiro que ganhava de sua aposentadoria forçada por invalidez era gasta em bebida. Só em bebida. Teria que comer o pão dormido que a vizinha lhe dera, isso bastaria até que a mesma lhe alimentasse.

Seu pai continuava a dormir. Ou já havia acordado e voltado a dormir. Não sabia dizer. Tocou sua mãozinha na grande mão peluda do pai e notou que estava fria. Pegou seu cobertor de flanela que tinha desde bebê e cobriu-o. Só estava esperando seu pai acordar (e ficar acordado). Ele até chegava a brincar com ela quando a notava. Não era uma má pessoa, só era triste.

Olhou o relógio. Era impressão sua ou o ponteiro já havia dado várias voltas e seu pai continuava dormindo. Tocou-lhe e continuava frio. Tentou acordá-lo. Em vão. Seu sono era profundo, mas a menina não sabia que era eterno.

Assim que levaram o corpo, a menina sabia que seria levada pela assistência social. Portanto tinha pouco tempo. Pegou sua boneca de pano, seu cobertor, alguns alimentos que encontrou espalhado pela casa e fugiu.

Correu até não sentir mais as suas perninhas e parou numa velha cabana. Bateu na porta, ninguém atendeu. Entrou. Do lado de fora havia uma horta que se cultivada lhe serviria de alimento durante algum tempo. Resolveu que ficaria ali até perderem o interesse em lhe procurar. Não demoraria muito, afinal só a estavam procurando por obrigação. Logo a esqueceriam, como a vida também parecia ter feito com ela.

Passaram-se dias, meses ou quem sabe, anos até que resolveu sair daquela cabana. Já não era mais criança, mas a infância já havia lhe abandonado há muito tempo. Já não sentia mais frio e nem medo. Olhou para o céu e lá estava o sol tímido, saindo detrás das nuvens.

Era verão.

É isso, fiquem a vontade p/ criticar, elogiar, etc.

Bjins

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3 comentários sobre “Mudança de estação

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